domingo, 20 de maio de 2012

Doces Sonhos




Como encontrar entre tantos sonhos
Algo menos real, menos enfadonho
Se tudo o que tenho, temo
E tudo o que quero, perco?

Como entornar o caldo ralo da vida
se todos os calos e feridas
se mesclam aos lampejos
de desejos prostrados
entre um ressonar
e outro?

Ouros e pratas não me encantam
Louros e fama não me agigantam

Almejo o simples e belo
Talvez bonecos de nuvem, uns caramelos
Guloseimas a lambuzar-me a boca e alma
Doçuras espalhando-se por dentro e fora de mim
Quisera ser este o meu imaginário e solitário doce fim

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eparrei



Não sei, mas acho que preciso de mais
Ou, quem sabe, preciso demais (?)
Talvez precise só estar só
ou quem sabe precise só
de um banho de mar
ou um de cachoeira
Um banho de amor
Um bocado de amor pra aquecer um coração cambaleante
pra reconfortar um sentimento tão errante, uma canção tão desconcertante
ideias tão cortantes quanto os relâmpagos das madrugadas regidas por Iansã

E falando Nela, preciso sim é de sua Força
Seus Chicotes, Erechins e Ventanias
Serão meus guias
neste novo caminhar

Seus ventos que me joguem em novas estradas
que me empurrem a novas entradas
que me enlevem e levem ao céu

Meus medos, Ela dissipe com seus raios
Seus raios iluminem os segredos da vida
Minha vida esteja sempre à luz de Sua espada

sábado, 7 de abril de 2012

O Não-Escritor

                                              

Poeta não é escritor mesmo.
Poeta mói.
Mói e corrói o que dói na alma inquieta do povo.

Poeta não escreve.
Poeta põe.
Põe em ordem as ideias – bagunçando-as.

Poeta não descreve.
Poeta rompe.
Rompe com os conceitos rotos do tradicionalismo linguístico.

Poeta não transcreve.
Poeta interrompe.
Interrompe o jeito velho e cansado de sentir e pensar e repetir.

Poeta não prescreve.
Poeta vive.
Vive nos que vivem de amor, e natureza, e qualquer coisa que seja poesia.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Gaiola


Onde está minha alegria?
Onde foi parar a luz do dia?
Onde se impregnou a agonia,
que não vejo, mas sinto
que não conto, mas minto
que não entendo, mas pinto
na tela, na teia cheia da vida bordada à mão

Onde está minha ousadia?
Onde foi começar a mordomia?
Onde se impregnou minha apatia,
que não quis, mas expus
que não projetei, mas reluz
eu não almejei, mas jamais pus
para dentro da gaveta e chaveei com vigor

Tateando pelos cantos da casa e do coração
na esperança de encontrar alguma solução
concluí não haverem fórmulas mágicas
capazes de amornar o desejo de ser

Tatuando mandalas por todo o meu corpo
na esperança de registrar alguma  emoção
concluí não haverem símbolos mágicos
capazes de tornar indelével o querer 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Verdadeiras Peles



Adoro andar nua
Adoro andar

Me sinto um pouco como a lua
E em minhas fases,
tenho faces diversas
Todas elas, verdadeiras

Adoro andar nua
Adoro amar

Me sinto curadora quando amo
E em minhas peles
conforto e confronto-me
Todas elas, tão verdadeiras

Adoro andar nua
Adoro olhar

Me sinto imperadora ao mirar
E em meus olhares
Percebo e mostro-me
Tantas visões, são verdadeiras

Adoro andar nua
Adoro nadar

Me sinto mergulhadora nata
E em meus naufrágios
Encontro e perco-me
Tantos tesouros;são verdadeiros

quinta-feira, 22 de março de 2012

Até Perceber


E fui me falando e me repetindo
Até perceber: cadê o encanto?

E fui me perdendo, esfacelando
Até perceber: onde fui parar?

E fui me enojando, embotando
Até perceber: cadê a luz?

E fui me entendendo, empenhando
Até perceber: foi preciso.

E fui me negando, ocultando
Até perceber: saudades de mim

E fui me buscando, tentando
Até perceber: nunca deixei de ser

E fui me alegrando, amando
Até perceber: sou eu comigo!

E fui caminhando, esvoaçando
Até perceber: só sou, só eu sei.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Montada




Vesti meu trajezinho básico e me pus a correr pela cidade
Precisava romper com meus velhos conceitos enjaulados
em um coração já tão fatigado e castigado e mastigado
Sentia que necessitava absorver uns novos jeitos de ser
Ansiava por intensidades e arrebatamentos, novidades

Passei em frente a vitrines
Só vi colares e outras futilidades
Passei em meio a limusines
Só vi má intenção e frivolidades

Vesti minha máscara para não assustar os transeuntes
E sustentei o belo sorriso maquiado como os olhos pintados
Verti lágrimas para dentro para não causar sustos, desconfortos
Parti para cima de um salto para atravessar a rua e os confrontos

Passei desta para uma melhor
Só vi uns poucos ao meu redor
Passei a rir das migalhas ofertadas
Só vi desculpas sujas, esfarrapadas